Toda semana alguém te oferece uma gangorra: mais funcionalidades ou menos funcionalidades, mais posts ou menos posts, mais reunião ou menos reunião. Você escolhe um lado, defende bem, e sai da sala com a sensação de que a decisão certa não estava na mesa. Ela não estava. Os dois lados dessa escolha medem a mesma coisa, quantidade, e ninguém na sala escolheu esse eixo de propósito. A Escada de Abstração existe para esse momento: subir um degrau, descobrir de que pergunta a sua pergunta é refém e descer por um eixo novo.
O oposto de mais é melhor, e a diferença é o eixo inteiro
Em 2017, Seth Godin publicou um post de poucas linhas, “The opposite of more”, com uma inversão que desmonta reuniões inteiras: quando a gente se importa de verdade, o oposto de mais não é menos. É melhor. O par mais/menos parece esgotar as opções porque os dois são opostos gramaticais; na prática são vizinhos de porta, porque os dois só sabem contar. Mais é o padrão de quem mede; melhor é o padrão de quem cuida.
A armadilha é confortável porque a gangorra sempre produz uma resposta. Cortar features parece coragem, adicionar parece ambição, e as duas decisões dispensam a pergunta difícil: contar o quê, a serviço de quê? Um time pode passar o trimestre inteiro regulando volume, para cima e para baixo, sem tocar uma única vez no que faria o trabalho ficar bom.
Subir um degrau: de que pergunta a sua pergunta é exemplo?
A escada opera por deslocamento vertical. A saída real da ferramenta percorre seis paradas (dois degraus para baixo, dois para cima, um passo lateral e uma síntese); rodando sobre um input cru como “não sei se lanço mais funcionalidades ou corto funcionalidades do meu produto”, o miolo sai mais ou menos assim, ainda cego para o seu produto:
Qual tela, qual botão, qual terça-feira? A feature que ninguém abre desde março é mais concreta que o backlog inteiro.
Descer tira a decisão do abstrato confortável. Antes de discutir quantidade, a escada obriga a nomear a instância: qual funcionalidade, usada por quem, abandonada quando. No concreto, “mais ou menos” já começa a soar estranho: ninguém pede mais do que não usa.
Não é um problema de contagem de funcionalidades: é um problema de promessa que ninguém sabe mais qual é.
Um degrau acima, a categoria aparece: o produto não sofre de excesso nem de falta, sofre de promessa difusa. Cada item do backlog responde sim ou não à pergunta “isso serve ao que prometemos?”, e essa pergunta não tem lado.
Quem já resolveu isso longe daqui? Restaurante bom não discute o número de pratos: discute o que o cardápio afirma.
No mesmo nível de abstração, outro campo já respondeu: casas sérias tiram do cardápio o prato que vende mas não serve à cozinha que elas afirmam ser. O critério nunca foi quantidade de pratos; era coerência com a promessa.
A síntese da ferramenta amarra os movimentos: a decisão nunca foi entre mais e menos, era sobre o que o produto promete, e cada funcionalidade ou responde a isso ou é enfeite. A tradução para o seu caso é sua. E se o que está preso na gangorra for o seu posicionamento, não o seu backlog, existe outro jeito de subir a mesma escada: procurar o verbo do que você faz.