Você já avaliou chefe ruim com precisão cirúrgica: o que cobra sem dar meta, o que nunca elogia, o que acha que férias é frescura. Existe um gestor na sua vida que escapa dessa régua há anos, e ele decide a sua agenda, o seu desenvolvimento e o tom com que os seus erros são narrados por dentro. Seth Godin deu nome a ele num post curto de dezembro de 2010: o pior chefe do mundo é você mesmo. A frase é ótima de compartilhar e desconfortável de aplicar. Aplicar é trabalho para o Instigador de Perspectivas.
O gestor da sua carreira nunca foi avaliado
O argumento do post cabe em três passos. Todo mundo tem um gestor. Na questão que mais importa, a sua carreira, o gestor é você. E você exerce o cargo com um descaso que não toleraria vindo de outra pessoa: desenvolvimento deixado ao acaso, e, diante da liberdade de decidir, hesitação, empacada e empurrão com a barriga, tudo narrado por um diálogo interno num tom que faria qualquer funcionário pedir demissão na primeira semana. Ninguém cobra esse chefe porque ninguém o vê: ele não aparece em organograma, não responde pesquisa de clima e nunca foi avaliado.
O teste do Godin é um espelho: pegue os critérios que você usa para condenar um gestor ruim (dá meta? dá retorno? desenvolve? respeita descanso? como fala com a equipe?) e aplique ao seu autogerenciamento. A nota que sai desse teste é a parte que ninguém reposta.
Quatro ângulos para auditar a própria autogestão
O problema do espelho é que você olha nele com os olhos de sempre, os mesmos que naturalizaram a situação. A ferramenta resolve isso trocando os olhos: analisa o problema por quatro perspectivas radicais, cada uma com uma observação concreta e a pergunta que destrava, e fecha apontando o ângulo mais afiado. Rodando sobre um input cru como “trabalho por conta própria, entrego tudo no prazo para os clientes, mas as decisões da minha própria carreira nunca chegam a ter vez e eu não entendo o que as trava”, a saída vem mais ou menos assim, ainda cega para a sua rotina:
- A criança de 5 anos estranha o óbvio: todo cliente seu tem prazo, e você não tem nem pauta. Quem decidiu que o seu projeto é o único que pode atrasar para sempre?
- O alienígena cataloga o ritual invisível: neste planeta, todo trabalhador se reporta a alguém em reuniões regulares; o seu gestor nunca convocou uma. Que regra tácita decidiu que só o trabalho de quem paga de fora merece prazo, pauta e reunião?
- Você daqui a 100 anos dissolve a urgência: nenhuma das entregas desta semana será lembrada; a década será julgada pelo que ficou adiado. Qual decisão empurrada com a barriga o seu futuro vai cobrar com juros?
- A inversão acha a vantagem escondida: ser o próprio chefe é o único cargo cujo contrato se reescreve da noite para o dia. O que mudaria no expediente de amanhã se você admitisse que o cargo é seu?
A síntese da ferramenta escolhe o ângulo que mais incomodou; a tradução para a sua rotina é sua. Aplicar a si mesmo a régua de gestor é parente do interrogatório que o Advogado do Diabo faz com as suas convicções, mudando só o alvo. E se o veredito for que esse chefe interno só sabe pedir mais (mais entregas, mais clientes, mais horas acordado), a régua dele também precisa de auditoria: o oposto de mais é melhor.